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Há certa confusão sobre o timing correto dessa mudança, gerada principalmente por não existir uma "data da virada"

A Internet tornou-se parte fundamental da sociedade. Tudo indica que veio para ficar e que a cada dia dependeremos mais dela. É provável um futuro em que a rede e os computadores serão invisíveis. Estarão tão integrados ao nosso dia a dia, disfarçados nos objetos do cotidiano, que não pensaremos mais neles, simplesmente os utilizaremos. Na atualidade, entretanto, a rede encara uma série de desafios que deve superar para continuar evoluindo e mesmo existindo. Muitos leitores certamente já se informaram sobre questões como neutralidade da rede, Marco Civil, espionagem e discussões sobre o próprio modelo de governança da Internet.

Um dos principais desafios atuais da Internet, contudo, ainda é conhecido por poucos. Ele envolve uma mudança radical em sua tecnologia mais básica: a troca do protocolo IP.

Um "protocolo" é apenas um conjunto de regras para que computadores e outros dispositivos possam se comunicar. O IP, ou Internet Protocol, faz basicamente duas coisas. Ele identifica cada dispositivo na rede, com um endereço numérico único globalmente. Também divide a informação em pedaços pequenos, chamados pacotes, e os marca com os endereços de origem e de destino. Cada uma das aplicações na Internet: email, web, conferências de áudio e vídeo, chats, troca de arquivos, tudo mesmo, depende do IP. Esse protocolo é a chave para a Internet funcionar em diversos meios de telecomunicações diferentes e o principal responsável por ela fazer um uso muito mais inteligente deles do que tecnologias tradicionais, como telefone e TV. O IP é, realmente, o coração da Internet. Por isso essa questão é importante.

O desafio presente consiste no fato de que a quantidade de endereços é limitada. Os endereços livres se esgotarão em breve. No Brasil, ainda em 2014. Não haverá um apagão na Internet. Tudo que hoje funciona, regra geral, continuará funcionando. A questão é realmente como suportar o crescimento, como conectar novos usuários e dispositivos, depois disso.

Temos apenas cerca de 40% da população do país com acesso à rede. Há também uma tendência de que diversos tipos de dispositivos sejam também conectados. Por exemplo, além dos computadores, tablets e smartphones, já é comum encontrarmos videogames e TVs conectados. A demanda por crescimento só tende a aumentar. O problema da escassez de endereços na versão em uso do protocolo IP, o IP versão 4, ou IPv4, foi previsto há muitos anos. Um novo protocolo, o IP versão 6, ou IPv6, foi criado para substituí-lo. A mudança é complexa e está atrasada. Apesar de semelhantes, os protocolos são incompatíveis. Isso exige um período de convivência, com ambos operando simultaneamente.

Os provedores de acesso em breve entregarão endereços IPv6 para seus clientes. Há muitos site web e serviços operando já com IPv4 e IPv6, simultaneamente, como o Google, Youtube, Gmail, Facebook, Yahoo, Netflix e milhares de outros. Contudo, a maior parte dos bancos, governos e comércio eletrônico ainda não funcionam assim. Caso fossem atendidos apenas com a nova tecnologia pelos provedores, os usuários não conseguiriam acessar a parte da Internet que usa ainda a tecnologia legada. Por essa razão os provedores entregarão também um endereço IPv4 para cada cliente.

Mas como, se não há mais? Eles utilizarão uma técnica semelhante a que é utilizada nas empresas atualmente, para compartilhar endereços: o CGNAT, ou Carrier Grade NAT. Um usuário compartilhará o endereço legado com dezenas de outros usuários simultaneamente. Isso funciona, mas traz uma série de efeitos colaterais indesejados. Um dos mais negativos é uma dificuldade maior, por vezes impossibilidade, de identificar o autor de um determinado crime, fraude, ou qualquer outro tipo de mal feito online. A técnica também pode ocasionar mau funcionamento ou lentidão em alguns websites e serviços, especialmente transmissão de áudio e vídeo, jogos e compartilhamento de arquivos.

Uma empresa que tem um site hoje, caso não implante a nova tecnologia rapidamente, corre o risco de ver seu serviço indisponível, ou não funcionando muito bem, para um número crescente de usuários.

A implantação do IPv6 nas redes corporativas pode ser feita de forma paulatina e planejada, ainda, mas a implantação nos serviços acessados via Internet por usuários externos, essa deve ser urgente! Um grande problema é que algumas operadoras de telecomunicações, bem como algumas empresas de hosting, estão atrasadas e ainda não oferecem o IPv6 para o mercado corporativo. Em muitos casos, é preciso trocar de fornecedor. A nova tecnologia também exige suporte nos equipamentos.

Na infraestrutura de redes, equipamentos têm suporte a IPv6 há diversos anos. Computadores e tablets, no geral, estão também preparados. Há um problema, contudo, com smartphones. Muitos modelos vendidos ainda nas lojas não oferecem suporte. O mesmo é verdade para smart TVs, consoles de videogames e outros gadgets. Consumidores comprando esses equipamentos presos ao protocolo legado hoje, poderão ter problemas num futuro não muito distante.

Há certa confusão sobre o timing correto dessa mudança, gerada principalmente por não existir uma "data da virada". Contudo, mais atrasos, ou mesmo uma falha, podem ser catastróficos para a Internet.

Caro leitor, se você é empresário, ou responsável pela TI de uma empresa, cuide para que o IPv6 seja ativado em seu website, email e outros serviços acessados externamente o mais rápido possível. Se você é apenas um usuário da Internet, preste atenção ao adquirir equipamentos e serviços, como roteadores wifi, smartphones, consoles de videogame, smart TVs, tablets, acesso à Internet, etc. Informe-se. Já suporta IPv6? Só compre ou contrate em caso afirmativo, ou se houver um roadmap claro para solucionar a questão rapidamente. Fique atento.

Este artigo foi publicado originalmente em: http://cio.com.br/tecnologia/2014/02/04/ipv6-um-desafio-tecnico-para-a-internet/

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