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O NIC.br tem conduzido há meses uma série de reuniões com diversos participantes para discutir a questão da transição tecnológica do IPv4 para o IPv6 na Internet.Nesta quarta, 12 de fevereiro, aconteceu a mais recente.

A transição é forçada pelo esgotamento mundial dos endereços livres no protocolo antigo, o IPv4 (em uso desde 1983), e vem sendo anunciada amplamente desde o início da década de 1990. Apesar da solução estar disponível há anos, muitas empresas postergaram demasiadamente o início da mudança, levando-nos à situação atual, que é problemática. O esgotamento dos IPs já aconteceu em diversas regiões do mundo, e ocorrerá nas Américas ainda em 2014. Como nem todos estão preparados, será necessário compartilhar os endereços antigos entre diversos usuários, o que leva a problemas de desempenho e segurança. O mais grave é a dificuldade de identificar um criminoso online.

Nas reuniões de coordenação que acontecem na sede do NIC.br, desde 2012, participam associações de provedores, Polícia Federal, Ministério Público, associações de e-commerce, bancos, operadoras de telecomunicações, ANATEL, fabricantes de equipamentos, entre outros, além de um representante do Comitê Gestor da Internet e da própria equipe técnica do NIC.br. Nesse tempo, foi possível aumentar o nível de compreensão de todos os envolvidos sobre o problema e criar um consenso em torno das soluções: é preciso acelerar a implantação do IPv6 e adotar uma medida paliativa na guarda de informações do IPv4 para provedores de conteúdos e serviços na rede, acrescentando a guarda da porta de origem, para quem já faz logs de IPs e instante do acesso.

Na última reunião houve uma proposta polêmica para que o NIC.br tentassse postergar o esgotamento dos endereços IPv4 livres. Isso nos motiva a fazer alguns esclarecimentos em relação à forma como eles são distribuidos. A distribuição de recursos de numeração na Internet, como blocos de endereços IPv4, segue princípios que são comuns em todo o mundo, sendo realizada por um conjunto de instituições organizadas em uma hierarquia. Os blocos distribuídos pelo NIC.br são repassados a ele pelo LACNIC, que é o Registro Regional para América Latina e Caribe. O LACNIC, por sua vez, recebeu seus endereços da IANA/ICANN. A distribuição dos endereços é sempre feita com base em necessidades justificadas. Funciona dessa forma para o LACNIC e para todos os demais registros regionais (Afrinic, ARIN, APNIC e RIPE NCC). Cabe destacar que os estoques do APNIC e do RIPE NCC teminaram já em 2011 e 2012, respectivamente, devido ao grande volume de alocações nessas regiões, que é conseqüência do crescimento natural da Internet.


Alocações de IPv4 anuais (em milhões de IPs) - fonte: análise de Geoff Huston
Alocações de IPv4 em 2013 (em milhões de IPs) - fonte: análise de Geoff Huston

Em nenhum momento o LACNIC recusou repasses de blocos de endereços IPv4 ao NIC.br e, analogamente, o NIC.br nunca recusou alocações a operadoras ou provedores de acesso, quando justificadas adequadamente. Em 2013, o Brasil foi o segundo país no mundo com mais alocações de endereços IPv4, atrás apenas dos EUA, sendo que o provedor que mais recebeu endereços foi brasileiro, conforme pode ser visto em recente artigo de Geoff Huston [1], cientista chefe do APNIC.

Aventou-se a possibilidade de que o NIC.br fosse buscar endereços junto a empresas norte americanas, que receberam grandes conjuntos de IPs no início da operação da Internet. Contudo, o processo seria complexo, caro, e o número de endereços provavelmente faria uma diferença apenas marginal, dada a velocidade de crescimento da rede no mundo e, em particular, no Brasil. Regras para permitir estas transferências de endereços diretamente entre as empresas já estão em vigor na América do Norte e Asía/Pacífico, desde final de 2012, e o total já transferido foi de pouco mais que 500 mil endereços IPv4. Quantidade bastante pequena considerando o uso desses recursos nos últimos anos.

Nada pôde ser feito pelo APNIC ou pelo RIPE NCC para evitar o esgotamento dos endereços em suas respectivas regiões. Os recursos são finitos, e o crescimento contínuo da Internet é uma realidade. Esse crescimento é visto como algo bom, positivo, e inclusive incentivado por políticas públicas no Brasil e no mundo. Não há nenhuma ação que possa ser feita para mitigar a escassez dos endereços IPv4. Eles realmente se esgotarão nos próximos meses.

O NIC.br tem atuado continuamente para garantir que nenhuma empresa receba blocos maiores de que os que realmente necessita, prejudicando os demais. Nos últimos 4 anos, vale destacar, houve um grande esforço para a recuperação de blocos sem uso, além de enfatizar, junto às grandes operadoras e todas as demais redes, a importância de se investir esforços para garantir o uso eficiente dos recursos. É possível afirmar que hoje não há desperdícios ou estoques de endereços nos provedores e operadoras, além do necessário para sua operação normal.

Em todos os setores, as empresas têm projetos em curso para a implantação do IPv6. Há, contudo, uma dificuldade muito grande para que se comprometam com prazos bem definidos, mesmo considerando a proximidade do esgotamento dos endereços antigos. Um problema bastante sério acontece com os equipamentos utilizados por consumidores domésticos, como smartphones e roteadores wifi: boa parte dos equipamentos vendidos no mercado ainda não suportam IPv6. Durante as reuniões, há algum tempo já se entendeu que o melhor caminho para resolver essa situação seria acrescentar o suporte ao IPv6 nos requisitos da homologação que já é efetuada nesse tipo de equipamento pela ANATEL. A equipe técnica do NIC.br tem colaborado com a Agência Reguladora na definição do conjunto de requisitos e em breve a ANATEL deverá publicar as novas regras.

Outro problema sério é que algumas das operadoras de telecom responsáveis pelo backbone da rede estão atrasadas na implantação do IPv6. Isso atrasa toda a cadeia envolvida no fornecimento de serviços na Internet: pequenos provedores, datacenters e empresas não podem avançar se não houver oferta de trânsito IPv6 por parte das principais operadoras. O caso mais grave é o de uma grande operadora com atuação majoritária na região nordeste do país, que não oferece o serviço nem em caráter experimental ainda. A situação levou o Comitê Gestor da Internet a interpelar formalmente as operadoras, em dezembro de 2013, por meio de ofício. A inação de algumas delas provocou recentemente uma bem vinda reação da ANATEL, que as convocou para uma reunião à portas fechadas na semana passada, anunciando na reunião no NIC.br, no dia 12, que atuaria mais fortemente junto a esse setor para que um cronograma fosse definido nos próximos dias. O representante da superintêndencia de planejamento e regulamentação da Agência afirmou que espera uma resposta muito rápida das operadoras e comprometeu-se a ter o cronograma em mãos para a próxima reunião no NIC.br, prevista para o final de março.

Outros pontos positivos, abordados na última reunião, foram a formação de um grupo de trabalho na FEBRABAN para tratar desse assunto, e ações da Câmara-e.net junto aos sites de comércio eletrônico, visando acelerar a implantação do IPv6.

Uma das ferramentas utilizadas pelo grupo de entidades que se reune no NIC.br é um termo de compromisso: um documento que discute o problema, as soluções e tarefas de cada grupo de empresas. Não é um contrato ou regulamento com cláusulas que estipulam penalidades, mas um acordo de cavalheiros, com compromissos a serem assumidos livremente. O processo de elaboração do documento, em si, ajudou o grupo a compreender melhor a situação e os possíveis caminhos para sua solução. Quando pronto, o documento também será útil para a divulgação das ações necessárias. Por exemplo, o Ministério Público e a Polícia Federal poderão usá-lo internamente para explicar a todos o que mudará quando houver a necessidade de identificar um usuário da Internet junto a um provedor de acesso. Chegou-se muito perto do ponto em que poderia ser assinado, mas após as intervenções da ANATEL e Câmara-e.net na última reunião, todos concordaram que seria melhor fazê-lo apenas quando todos apresentassem cronogramas claros de trabalho.

Acompanhando as ações recentes da ANATEL, da FEBRABAN, da Câmara-e.net, além de notícias sobre a implantação do IPv6 em muitos pequenos provedores, sites e outros serviços, há espaço para um otimismo moderado. Há muito ainda para ser feito, mas parece que estamos no caminho correto.

Por Ricardo Patara e Antonio M. Moreiras.

[1] http://www.potaroo.net/ispcol/2014-02/addressing2013.html

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