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Muitos Sistemas Autônomos(*) ainda não conseguiram se conectar via IPv6. Essa situação dificulta toda a implantação do protocolo no Brasil, pois gera um efeito negativo em cascata. Explicando melhor: se o provedor de trânsito não fornecer IPv6 aos datacenters e às empresas em geral, os sites Web e outros serviços não poderão implantar o IPv6. Se os pequenos provedores não conseguem obter IPv6 dos grandes provedores, também não conseguem entregá-los a seus usuários.

A equipe do IPv6.br vinha recomendando, desde o final de 2011, um cronograma para a implantação do IPv6 no Brasil, onde todos os sistemas autônomos deveriam obter trânsito IPv6 até a metade de 2012. O próprio CGI.br recomendou esse mesmo cronograma em sua resolução 007/2012. Era já uma meta difícil, mas o esgotamento dos endereços livres IPv4 está muito próximo e é necessário que toda a cadeia de valor da Internet tenha condições de implantar o IPv6 em tempo hábil. Ainda em 2012, algumas das grandes operadoras de telecom (que funcionam, na prática, como provedores para os demais provedores) comprometeram-se a disponibilizar esse trânsito, para os demais Sistemas Autônomos, até Janeiro de 2013.

Vamos buscar, neste artigo, entender como está a situação atualmente, em março de 2013. Para tanto, nos basearemos em três fontes de dados: (i) dados do Registro.br e LACNIC, (ii) numa enquete feita recentemente pela equipe do IPv6.br, entre os ASes, e (iii) na análise da tabela de rotas global da Internet. (*) Sistemas Autônomos são as redes que compõem a Internet. Praticamente todos os provedores de acesso e serviços na Internet são também ASes (Sistemas Autônomos). Outras grandes redes, de empresas, universidades e outros tipos de instituições também podem ser. Os ASes normalmente têm seus próprios endereços IP, e usam o BGP, que é o protocolo de roteamento externo da Internet, para ensinar às demais redes como chegar até seus usuários e serviços.


Dados do Registro.br e LACNIC

Segundo os dados do Registro.br e LACNIC, no Brasil temos 1963 Autonomous Systems, contra 975 blocos IPv6 alocados. Esses dados podem ser obtidos em ftp://ftp.lacnic.net/pub/stats/lacnic/delegated-lacnic-latest. No próprio sítio do IPv6.br temos um gráfico que ilustra a evolução dessas alocações: http://ipv6.br/estatisticas/#asnipv6.

Apesar da taxa de crescimento ter aumentado consideravelmente nos últimos anos, pode-se observar que a situação está longe de ser ideal. Os dados mostram que apenas cerca de metade dos ASes nacionais tem um bloco IPv6 alocado para si.

Olhando apenas esses dados, e fazendo uma extrapolação simples, vemos que somente em dezembro de 2015 todos os ASes terão IPv6.

Naturalmente, numa análise mais profunda deveríamos considerar outros fatores. Por exemplo, temos uma concentração no mercado brasileiro, com um número pequeno de provedores oferecendo trânsito ou acesso à Internet a uma grande parcela dos usuários. Se observarmos a tabela de roteamento global, veremos que apenas cerca de 83% dos 1963 ASes estão realmente ativos. É mais importante que os ASes realmente ativos e, em especial, os que têm mais clientes, tenham IPv6, do que os demais. Provavelmente se considerássemos isso teríamos uma situação melhor do que a observada tão somente com os dados de alocação, mas também provavelmente continuaria longe do ideal.


Enquete sobre trânsito IPv6 para os ASes

Realizamos entre 15 e 20 de março de 2013 uma enquete entre os ASes brasileiros, divulgada para nossos ex alunos do curso IPv6, e na lista de emails do GTER (Grupo de Trabalho de Engenharia de Redes). Como algumas das principais operadoras de telecom se comprometeram o oferecer trânsito IPv6 para os Sistemas Autônomos à partir de janeiro de 2013, nossa intenção era avaliar como isso estava acontecendo. Esperávamos, por exemplo, observar alguma diferença na oferta entre as regiões do país, ou entre cidades maiores e menores.

Obtivemos 59 respostas. Os provedores eram em sua maioria de Capitais ou cidades médias (89%), e se dividiam nas seguintes regiões:

Apesar de não termos muitas respostas, elas permitiram entender a situação, mostrando algo diferente do que esperávamos. Em uma das questões perguntávamos: "Você tentou obter trânsito IPv6 para seu ASN em 2013 e NÃO CONSEGUIU? Consultando quais operadoras?". Obtivemos o seguinte quadro:

Em "outros", apareceram também ANID, COPEL e UNOTEL. Uma outra questão era: "Informe as operadoras com as quais você JÁ TEM trânsito IPv6". E nos permitiu obter o seguinte quadro:

Analisando as respostas alguns pontos chamaram a atenção

  • aparentemente, algumas das principais operadoras de telecom ainda não começaram a oferecer trânsito IPv6 para os ASes;
  • mesmo as operadoras que claramente já oferecem trânsito IPv6, disseram NÃO a alguns clientes, mostrando que pode haver problemas de disponibilidade em localidades específicas, ou ainda que podem haver gerentes de contas mal informados;
  • os trânsitos experimentais, como o do NIC.br e o da HE ainda figuram entre os principais "fornecedores";
  • muitos ASes aparentemente não estão solicitando trânsito IPv6 para seus upstreams, ou ao menos não têm insistido nisso.

Análise da tabela de roteamento global da Internet

A análise da enquete nos mostrou uma situação diferente da que esperávamos: aparentemente alguns dos principais fornecedores de trânsito IPv4 ainda não começaram a oferecer trânsito IPv6 para os demais ASes. No entanto, com menos de 60 respostas, não havia como ter certeza. Por isso, buscamos dados em outra fonte: analisamos as tabelas de rotas globais, IPv4 e IPv6.

A análise consistiu em identificar os ASes brasileiros, e verificar quem eram seus principais upstreams, IPv4 e IPv6, observando a tabela de rotas global em diversos "looking glasses" e "coletores de rotas" disponíveis publicamente: route-server.he.net, route-server.eu.gblx.net, grh.sixxs.net, route-server.tinet.net, routeserver.belwue.de, routeserver.sunrise.ch, route-views4.routeviews.org, routeviews6.routeviews.org.

Em primeiro lugar, vemos que apenas 201 ASes brasileiros anunciam blocos IPv6 na Internet, o que é a indicação mínima de que estão efetivamente sendo usados. Ou seja, se um AS não anuncia sequer um bloco IPv6 na tabela global de rotas, podemos ter certeza de que ele não está utilizando o protocolo. O número de 201 ASes que está utilizando de fato o IPv6 equivale a apenas 20.6% dos que têm os blocos IPv6 alocados, ou 10.2% do total de ASes do país. Esse dado piora o retrato que tínhamos, baseado no número de alocações feitas aos ASes pelo Registro.br, que por si só já era ruim.

A tabela a seguir mostra TODOS os ASes que fornecem trânsito IPv6 para um AS brasileiro, ordenados de acordo com o número de clientes de trânsito. Mostra ainda a quantidade de clientes de trânsito que cada um desses fornecedores possui. Se você é um provedor, ou Sistema Autônomo, e precisa obter trânsito IPv6, essa tabela mostra quem pode, de fato, lhe fornecer!

Uma dica para quem quer saber quem são os clientes, e fornecedores, de IPv4 ou IPv6, para um dado AS: uma forma muito simples é consultar o sítio: http://bgp.net.br/analysis e digitar o ASN desejado. Outro sítio que oferece um recurso semelhante é o da HE: http://bgp.he.net/, ele tem como vantagem mostrar as relações entre os ASes de forma gráfica. Uma terceira opção é o RIS, do RIPE: http://www.ripe.net/data-tools/stats/ris. Mas veja a "nota importante" ao final deste artigo, antes de confiar plenamente nos dados obtidos!

Pos Qtd    ASN Nome
001 049  16735 COMPANHIA DE TELECOMUNICACOES DO BRASIL CENTRAL
002 049   6939 Hurricane Electric, Inc.
003 023   3549 Level 3 Communications, Inc.
004 021  22548 Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR
005 013  18881 Global Village Telecom
006 012   1916 Associação Rede Nacional de Ensino e Pesquisa
007 007  25933 Sul Americana Tecnologia e Informática Ltda.
008 007  16397 Alog-02 Soluções de Tecnologia em Informática S.A.
009 007  12956 Telefonica
010 006   6762 SEABONE-NET
011 005  22356 Durand do Brasil Ltda
012 004  14868 COPEL Telecom S.A.
013 004  14840 COMMCORP COMUNICACOES LTDA
014 004  10881 FUNPAR - Fundacao da UFPR para o DCTC
015 004  10429 Telefonica Data S.A.
016 004   1251 FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO SÃO PAULO
017 003 262761 oquei.com.br provedor Ltda
018 003  53237 TELECOMUNICACOES BRASILEIRAS S. A. - TELEBRAS
019 003  30071 TowardEX Technologies International, Inc.
020 003  26615 Tim Celular S.A.
021 003  12989 HWNG
022 003  11835 IPE INFORMATICA LTDA
023 003   2716 Universidade Federal do Rio Grande do Sul
024 002  28346 IB TELECOMUNICAÇÕES LTDA
025 002  28186 ITS TELECOMUNICAÇÕES LTDA
026 002  22431 ABASE - SERVICOS TELECOM DES E COM SOFT LTDA
027 002  20080 Florida International University
028 002  19151 WV FIBER
029 002   8560 ONEANDONE-AS
030 002   3257 TINET-BACKBONE
031 002   1239 Sprint
032 001 262699 FOX Internet Banda Larga
033 001 262465 Masterradius Telecom Ltda EPP
034 001  53137 TCA INFORMATICA LTDA
035 001  29748 Carpathia Hosting, Inc.
036 001  28625 Terremark do Brasil Ltda.
037 001  28303 Rede OptiTel
038 001  28220 CABO SERVICOS DE TELECOMUNICACOES LTDA
039 001  27750 Cooperación Latino Americana de Redes Avanzadas
040 001  23456 Internet Assigned Numbers Authority
041 001  23148 TERRENAP DATA CENTERS, INC.
042 001  18747 IFX Communication Ventures, Inc.
043 001  10417 Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa
044 001   4230 EMBRATEL-EMPRESA BRASILEIRA DE TELECOMUNICAÇÕES SA
045 001   3491 Beyond The Network America, Inc.
046 001   3292 TDC
047 001   2914 NTT America, Inc.
048 001   2603 NORDUNET
049 001    174 Cogent Communications

Para fins de comparação, vamos observar quem são os principais fornecedores de trânsito IPv4 para os ASes brasileiros. A tabela a seguir mostra aqueles ASes que têm mais de 50 clientes de trânsito:

Pos Qtd    ASN Nome
001 255  18881 Global Village Telecom
002 212  16735 COMPANHIA DE TELECOMUNICACOES DO BRASIL CENTRAL
003 179   4230 EMBRATEL-EMPRESA BRASILEIRA DE TELECOMUNICA??ES SA
004 169   8167 Brasil Telecom S/A - Filial Distrito Federal
005 151   3549 Level 3 Communications, Inc.
006 094   7738 Telemar Norte Leste S.A.
007 092  10429 Telefonica Data S.A.
008 091  26615 Tim Celular S.A.
009 052  14868 COPEL Telecom S.A.

A GVT (AS 18881) e a Algar/CTBC (AS 16735) aparecem como os principais fornecedores de IPv4. E também figuram entre os principais fornecedores de IPv6! A Level 3/GBLX (AS 3549) também é uma grande fornecedora de IPv4 e IPv6.>

A Embratel (AS 4230) é a terceira maior fornecedora de IPv4, mas oferece IPv6 apenas para a NET, que é de seu próprio grupo. Se somarmos os clientes IPv4 da OI/BrT/Telemar (ASes 8167 e 7738), ela seria a principal fornecedora. No entanto, não aparece ainda na tabela de rotas IPv6.

A Vivo/Telefonica (AS 10429), Tim (AS 26615) e COPEL (AS 14868) são grandes fornecedores IPv4. Mas oferecem IPv6 apenas para um número muito limitado de clientes, fazendo crer, numa primeira análise, que este ainda não está disponível em larga escala, ou seja, que para elas o IPv6 ainda não é um "produto de prateleira". Contudo, pode ser também que tenham disponibilizado o IPv6 apenas muito recentemente e que as ativações ainda não tenham sido solicitadas por seus clientes, ou ainda não tenha havido tempo para que fossem efetivadas e aparecessem na análise.


Conclusão

A falta de trânsito IPv6 para os ASes no Brasil continua sendo uma questão grave, em março de 2013, gerando potencialmente um efeito cascata negativo para a implantação do protocolo em toda a cadeia da Internet. Tendo em vista a proximidade do esgotamento do IPv4, a situação é realmente preocupante.

Vemos que claramente alguns dos principais fornecedores de trânsito IPv4, já oferecem também IPv6. Em especial a Algar Telecom, a GVT e a Level3. Outros demonstraram capacidade mas aparentemente ainda não oferecem em larga escala, como COPEL, TIM e VIVO. Acreditamos, pelas análises realizadas, que clientes IPv4 dessas 6 operadoras, de forma particular, devem insistir para serem atendidos com IPv6, e podem esperar e cobrar uma resposta positiva no curto prazo.

Outros dos grandes fornecedores de trânsito IPv4, como a Embratel e a OI ainda não estão oferecendo trânsito IPv6. Acreditamos que a insistência por parte de seus atuais clientes de trânsito IPv4 é ainda mais fundamental. Mas também, segundo os dados desta análise, não acreditamos que obterão uma resposta no curto prazo. Talvez seja necessário buscar alternativas. Precisamos também de alguma forma procurar entender as dificuldades que essas operadoras estão encontrando para atualizar-se no mesmo ritmo das demais.

Por fim, sugerimos aos ASes que não consigam atendimento pelos seus atuais fornecedores, que verifiquem a tabela completa dos fornecedores de trânsito IPv6. Verifiquem também quais estão presentes nos mesmos PTTs em que já participam, ou que atendam sua localidade. E que busquem novas oportunidades de negócio!
 

Nota importante:
Extrair dados das tabelas de rotas BGP não é uma tarefa simples: A visão da tabela não é a mesma para todos os ASes. É difícil distinguir relações de trânsito de relações de peering. De fato, podemos mesmo afirmar que o BGP foi projetado para esconder algumas informações! Podem haver, portanto, algumas distorções nos números aqui apresentados, e isso pode nos levar a conclusões equivocadas. Para minimizar esse problema, as análises da tabela IPv6 aqui relatadas basearam-se na comparação da visão de diversos ASes diferentes, o que nos leva a um resultado que, esperamos, esteja bem próximo à realidade.

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